quinta-feira, 7 de março de 2013

Desenhos antigos e o preconceito dos olhos adultos

Eu adoro música de forma geral, mas um estilo em especial que eu gosto demais é o Boogie Woogie. O estilo é muito divertido, charmoso e dançante, tanto que até a sua descrição na Wikipedia é muito legal (mesmo que você não entenda o que significa "sincopado", hehe):
O boogie-woogie é um estilo de blues, caracterizado pelo uso sincopado da mão esquerda ao piano. Foi muito popular entre os negros nos anos 30 e anos 40 nos Estados Unidos, sendo geralmente tocado pelos mesmos.
Uma das músicas desse estilo que eu mais gosto se chama "Death Ray Boogie", aparentemente de autoria de Peter Johnson (não consegui confirmar na Internet). Vários músicos a gravaram, entre eles o próprio Pete Johnson, Joja Wendt e também Johnny Nicholas (o meu preferido, mas não achei uma versão dele no Youtube infelizmente). Esse boogie é tão famoso que muita gente toca até hoje, e algumas versões são bastante bacanas, como a dessa turma aqui (a pianista é muito simpática!).

A questão desse meu post, porém, é que eu aprendi a gostar desse estilo de música nos desenhos antigos, produzidos pela Warner Bros e chamados Merrie Melodies (em tradução livre, Canções Alegres - muito apropriado, não?), que passavam na TV aberta quando eu era criança. Infelizmente, esses desenhos não passam mais na TV (nem na aberta, nem em cabo, e também não tem no NetFlix), porque são considerados impróprios e preconceituosos.

Dizem por ai que nesses desenhos os negros foram retratados como preguiçosos, burros, vagabundos e foram estereotipados com lábios grossos, cabelos "ruins" e retratados como pobres e empregados braçais com pouca ou nenhuma habilidade. Bom, essas "observações" devem ser coisa de adultos, porque quando eu era criança eu juro que o que eu enxergava nesses desenhos eram pessoas bastante ativas, inteligentes e talentosas (dançavam muito, cantavam espetacularmente bem e tocavam todo tipo de instrumento musical!), que tinham cabelos escuros como de muitas pessoas que eu conhecia, e trabalhavam por ai pra sustentar a família tal como todo mundo, inclusive meu pai que já foi garçom, eletricista e pedreiro.

Hoje, como um adulto, eu entendo que esses desenhos talvez tenham mesmo alguns estereótipos ruins (como sugerir que os negros não tomem banho ou que sejam viciados em jogatina, tendo dados até no lugar dos dentes e rolando ovos como se estivessem em um cassino). Mas eles também têm muita coisa bacana, pois mostram uma cultura rica, cuja origem não veio de brancos, amarelos, marrons, e azuis, mas hoje pertence a todos. E, aliás, os desenhos são divertidos e engraçados! E, de novo, quando eu era criança, eu só percebia as coisas boas. O resto, era tão superficial, que honestamente passava desapercebido.

As vezes eu acho que exageramos ao censurar muitas coisas, ao forçarmos o tal do "politicamente correto". É verdade que a intolerância existe no mundo, de muitas formas (contra times de futebol, opções sexuais, opções políticas, condições financeiras, e por ai vai). Mas, pessoas idiotas sempre vão existir, e censurar completamente uma obra porque ela tem alguns aspectos ruins devido à época em que foi criada, é um exagero. Em verdade, é uma atitude covarde, pois é muito mais fácil simplesmente impedir o seu filho de ter acesso a tudo - inclusive o que tem de bom na obra, do que simplesmente indicar pra ele o que é errado, explicar o por quê e fazê-lo pensar a respeito.

Boogie Woogie Bugle Boy of Company B (Walter Lantz, 1941)

No final, eu não entendo porque desenhos como "Boogie Woogie Bugle Boy of Company B" são banidos, mas desenhos do Recruta Zero não. O Zero é tão vagabundo quanto se poderia dizer do Bugle Boy, não acha? Procure por "banned merrie melody cartoons" no Youtube, e você verá a triste quantidade de desenhos bacanas que são considerados impróprios (aliás, na própria descrição do vídeo do Bugle Boy que eu coloquei ali em cima você pode ver a preocupação de quem postou a respeito de ele ser "próprio para crianças"). Mesmo outros desenhos antigos, como "Pixie Picnic" ainda passam vez ou outra na TV (eu assisti no Cartoon Network uma noite dessas).

Pixie Picnic (Walter Lantz, 1948)

Veja, os dois desenhos são bastante parecidos: um grupo de indivíduos fazem suas tarefas diárias, mas a música os distrai e eles são trapalhados a ponto de fazerem muita bagunça em situações engraçadas. No desenho de baixo, o estereótipo é de anões e a música é clássica; alguns anões parecem bem bobinhos a ponto de poderem ser taxados de burros, e outros são preguiçosos ou se embebedam. Qual é a diferença? No primeiro os personagens são negros.

Talvez nós tenhamos medo de enxergar nos personagens dos desenhos nós mesmos, e por isso caracterizamos as pessoas em classes, preferências sexuais, e outras coisas. Mas a verdade é que nós somos todos iguais, seja ao fazer bobagens engraçadas eventuais, se divertir ou curtir muita música (qualquer que seja o tipo).

:wq
Luiz

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